Estava eu a ver uns tópicos da comunidade Debates: Religião e Ateísmo quando me deparei com um sujeito chamado “m2s” falando um monte de bobagens sobre Design Inteligente e Evolucionismo.
O deslize é comum, e por isso mesmo estou a colocá-lo aqui no blog. Vai servir para refutar mais gente depois, não só por mim. Além disso, fiquei um bom tempo sem publicar, voltando já.
Vamos ao que ele disse, que pode ser conferido na íntegra – é preciso ter conta ou estar ligado ao Orkut. Caso ele apague, há aqui a transcrição:
Procure mencionar em sua aula sobre a inutilidade do apêndice, sobre a falha crepuscular do ponto cego que existe nos olhos humanos, e sobre a extensão inócua do nervo vago, principalmente na girafa!
Tente conciliar esses ”erros” grotescos com o seu Inteligent(?) Design!
Boa aula aos seus pupilos, meu caro!
Acho que não é novidade para ninguém que o conhecimento de biologia de muitos ateus por aí (principalmente neo ateus) não é muito bom. Lembrando que quase todos querem dar aulas de biologia, e costumam citar a evolução como alternativa à criação (ou seja, já começam errando).
Isso vai desde o neo ateu “recém convertido” por Dawkins até Hitchens (debatendo com Craig). Esse debate será publicado aqui, apesar de não ser difícil encontrá-lo na internet.
É claro que a inépcia (que é comum aos neo ateus, embora eu não possa afirmar que o sujeito em questão é neo ateu ou não) em ciência acaba sendo motivo de constrangimento mais tarde. Pois é suposto que alguém entenda o assunto que discute.
Eu já deixei de tratar de vários assuntos por não ter um conhecimento aprofundado. Fazer isso não é motivo de vergonha para ninguém. Se o ateu não entende evolução ou biologia (ou só entende o que lê em sites ateístas) a ponto de defender tais alegações como fatos, é quase tão desinformado quanto quem alega que “o homem veio do macaco”.
Enfim, vamos ao esclarecimento, pois esperar que ele corrija seu erro por si só é tempo jogado no lixo.
Confesso que não é a primeira vez que leio esse tipo de bobagem sobre o apêndice. Parece que o sujeito tem preguiça de ir ao Google ou a outro motor de busca e pesquisar. É essa a impressão que dá.
Inutilidade do apêndice
O apêndice tem pelo menos uma função clara. Tal função pode ter diminuído com o passar do tempo, só que está longe de ser uma treta para os cristãos.
Tal informação não é tão recente. E mesmo assim, há repetição ad nauseam em sites e blogs ateístas ou darwinistas.
É claro que o neo ateu quase sempre vai se defender alegando que, mesmo tendo uma função, o apêndice é um órgão vestigial. Ou seja, é um órgão vestigial porque é um órgão vestigial, ou outro tipo de raciocínio circular.
Desnecessário dizer que esse tipo de “vestígio” está de acordo com o modelo criacionista. De qualquer forma, dizer que o apêndice não tem uma função – ou que não tem uma “função clara” – é mentir.
Ponto cego
Essa alegação do ponto cego ser um defeito parece que virou mania. Até mesmo Dawkins critica a visão humana, sem muito sucesso.
O ponto cego ocupa menos de 0,25% do campo de visão. Além disso, um olho cobre o ponto cego do outro.
A estrutura “invertida” dos olhos dos vertebrados, em comparação aos olhos de cefalópodes (lulas, por exemplo) é mais complexa e eficiente. A diferença principal é que a visão dos vertebrados está mais suscetível a sofrer danos pela incidência de luz solar.
A estrutura dos olhos dos vertebrados está pronta para se recuperar dos danos causados. A luz que incide no fundo dos oceanos é muito menor do que a luz à superfície. Lulas não precisam de uma retina “invertida”, ao passo que nós dependemos dessa suposta inversão para regeneração.
Mais informações aqui.
Nervo vago
Este é mais recente. Eu já tinha ouvido falar, mas ainda não tinha investigado.
O nervo vago ele abastece partes do coração, músculos da traqueia e membranas mucosas, e o esôfago. Isso pode explicar seu trajeto*:
As the recurrent nerve hooks around the subclavian artery or aorta, it gives off several cardiac filaments to the deep part of the cardiac plexus. As it ascends in the neck it gives off branches, more numerous on the left than on the right side, to the mucous membrane and muscular coat of the esophagus; branches to the mucous membrane and muscular fibers of the trachea; and some pharyngeal filaments to the Constrictor pharyngis inferior.
Mais informações aqui**.
Novamente, o erro é o desconhecimento do alegador, que não foi atrás de estudar. A impressão que fica é que o sujeito leu em algum canto que o nervo vago é evidência contra o criacionismo e nem se deu ao trabalho de estudar o assunto.
O erro mais comum é considerar o nervo vago somente pelo seu ponto de saída e de chegada. O que não é necessariamente correto (como acabamos de ver).
Conclusão
Os 3 argumentos não passam de 3 enrolações diferentes baseadas na mesma linha de argumentação, que é a do “mau design”. Supostamente, mostrando falhas nos sistemas dos seres vivos, teríamos evidência contra a criação.
A treta, para os neo ateus, é que mesmo mau design é design. Mesmo o mau design necessita de um designer. Não é o design ruim do Ford Edsel ou do Gurgel X-15 que evidencia que não foram projetados.
Lembrando que a ciência não faz juízo de valor sobre questões estéticas.
Quanto à questão do funcionamento, o que sabemos é que copiar o funcionamento e a estrutura dos sistemas dos seres vivos é eficiente. Se ali não há design, por que é que temos de copiar o que ali está? Essa situação encaixa-se muito melhor quando a hipótese de Design por um ser inteligente é considerada (encontramos design onde esperamos encontrar design).
Além disso, podemos notar que os três argumentos são baseados na ignorância. A falácia repete-se:
- Não conheço função para o apêndice e não fui estudar sobre ele, logo ele é um órgão vestigial inútil e sem função;
- Não conheço como o sistema humano de visão funciona, nem as funções e benefícios da estrutura “invertida” da retina nos vertebrados, logo isso é mau design e prova que Deus não criou a visão;
- Não conheço outra função para o nervo vago além do ponto de saída e de chegada, logo ele é uma evidência de mau design e não é consistente com uma criação divina.
O sujeito pode até trocar “conheço” por “conhecemos”, tentando representar a ciência (Como se ele fosse mesmo uma representação da ciência…).
Esse tipo de enrolação acontece em outras áreas científicas, além da biologia – Por exemplo, o “modelo” de Hawkings para a criação do Universo, através da gravidade (não se riam!).
E é claro que quase todos os neo ateus suportam esse tipo de declaração fraudulenta. Até o momento, não vi nenhum ateu criticando a fé de Hawkings, mas provavelmente há alguns que não se deixam enganar – mesmo quando a mentira é uma pregação antiteísta.
*O doutor Jonathan Safarti referiu o nervo vago em seu livro “The Greatest Hoax On Earth? Refuting Dawkins on Evolution” sobre o livro “Gray’s Anatomy”, já referido na refutação.
**A anatomia estudada estende-se, naturalmente, para as girafas e outros vertebrados com pescoço comprido.

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